Pulau Jerejak

Dentro da programação de trabalho da ONG, há um treinamento chamado MCE - MAKNA Continuous Education, realizado três vezes por ano. Participei de um no fim do ano passado, perto do Natal, e o primeiro de 2010 aconteceu semana passada, em Pulau Jerejak (Ilha Jerejak, em malaio), no estado de Penang. O estado em si é também uma ilha, ligado à península por uma das mais belas pontes que eu já vi. Ao atravessá-la, Jerejak fica ao sul, do seu lado esquerdo e só se chega lá de barco.

A maioria dos habitantes de Penang nunca a visitou, pois até o século passado, Jerejak era conhecida como 'a Alcatraz da Malásia'. A ilha abrigava uma prisão de segurança máxima para traficantes de drogas e comunistas e também um sanatório/hospital para pessoas com hanseníase e tuberculose - na verdade, uma quarentena permanente. Durante a época colonial, a primeira parada dos imigrantes, antes de chegar à terra firme, também era lá, para inspeções de saúde.

Em 1993, todas essas instituições foram desativadas (demolidas, literalmente) e os presos foram transferidos para cadeias em Johor, estado que faz fronteira com Cingapura. Restaram apenas os pescadores, que passaram a viver na outra margem quando a prisão foi construída. Hoje, a única coisa a se fazer em Jerejak é curtir o resort que foi lá estabelecido, em 2004. Apesar da curta distância entre a ilha e a península (é possível ver os carros trafegando na orla), as fugas eram dificultadas pelas colônias de águas-vivas, propositalmente plantadas ao redor de Jerejak. Sem controle, elas proliferaram a tal ponto que não se pode mais tomar banho no mar.

Além do treinamento, sobraram as atividades e a piscina do resort: passeio de bicicleta, vôlei de praia, escalada, tirolesa, tênis de mesa, karaokê (this is Asia, man!)... em três horas, praticamente rodamos a ilha toda, fazendo trilha. Pode-se ver o que sobrou dos antigos prédios e se surpreender com a floresta, que tomou esses espaços de volta para si em pouco mais de dez anos.

Quatro dias foram mais do que suficientes - entediantes até, em alguns aspectos. Pelo menos deu pra descansar a mente e ter algumas novas idéias para a labuta diária. Agora, preciso voltar a Penang e conhecer seus templos e sua história.

Fotos aqui.

: : Em KL, 20h06.
: : Ouvindo: Audioslave.

P.S.: Para quem ainda não sabe,  o blog agora tem uma Caixinha do SAC, no menu à direita. Na verdade, é o meu Formspring, um formulário em que você pode perguntar qualquer coisa, anonimamente - mas eu deixo vocês usarem para dúvidas, sugestões, críticas, reclames, propostas comerciais e afins. Use-o bem, pois o espaço é limitado (pro questionador, não para mim. Então estejam preparados!). Fiquem à vontade para explorarem mais as minhas viagens e seus detalhes que, muitas vezes, só são mencionados em uma mesa de bar - porém, para ler as respostas, é necessário ir para a página principal do formulário, aqui.

Uma janela no Reino do Camboja

Ahá! Todos já estavam pensando que eu tinha abandonado meu querido boizinho... mas é só a correria mesmo, gente. Fim de ano/começo do ano voou e eu nem reparei! Muitos projetos e cálculos a serem finalizados no trabalho e alguns contratempos até a aprovação do orçamento para 2010. Foram muitas tempestades; porém, enquanto espero pela próxima, volto-me ao labor de escriba (uh, que poético!).

Nossos escritórios em Dubai, Cingapura e Hong Kong estão lindos e encaminhados. Logo, chegou o tempo de procurar novas aventuras. Para isso, meu chefe resolveu me mandar para o Camboja, a fim de visitar o Sihanouk Hospital, que atende só aos necessitados e onde todo mundo recebe tratamento, de graça - inclusive para doenças crônicas. Conheci uma senhora que já era paciente de lá há quase 10 anos e todo mês recebia seus remédios para hipertensão, gratuitamente.

Estive na capital Phnom Penh (leia-se 'Pi-nom Pen') por dois intensos e empoeirados dias. Após a colonização francesa, uma ditadura socialista e uma invasão vietnamita, a maioria dos cambojanos sobrevive com menos de um dólar por dia. O país é rico em recursos e belezas naturais mas sofre com a falta de organização e qualificação. Só as áreas turísticas são asfaltadas e não há muitas indústrias, tampouco edifícios altos. O clima, mais ameno que o de Kuala Lumpur, compensa a poeira - de noite, pode-se até dormir sem ligar o ar condicionado. Apesar da pobreza e das dificuldades, as pessoas estão sempre sorrindo, talvez devido ao fato de serem budistas. No meio do mar de motocicletas carregando famílias inteiras e tuk-tuks com a produção do mês, você vê um BMW e um Bentley. Com certeza, o Camboja não possui classe média - e a manutenção da miséria continua a beneficiar uma camada mínima do seu povo.

Eles vivem assim, e vivem sorrindo... (Foto: avikbangalee)

 Crianças, sempre sorrindo... (Foto: avikbangalee)

Vendedora de verduras, umas das tantas que encontramos pelo caminho (Foto: avikbangalee).

Entre o aeroporto, a reunião com os diretores do Hospital e a partida, tive tempo de conhecer dois lugares icônicos para a história recente daquele país - o antigo centro de detenção e o campo de extermínio do Regime Pol Pot, responsável por um dos maiores genocídios da Ásia. Ao andar pelas celas e pelas valas comuns, é impossível ouvir algum som - nem mesmo o vento sussurra entre as barras de aço e o arame farpado. Todos se sucumbem perante a perplexidade do sistema Kampuchea, que matava qualquer um que parecia ser um traidor. Durante quatro anos, todos aqueles com algum nível de instrução foram mortos: intelectuais e formadores de opinião eram os primeiros da lista. O resto da população foi forçada a migrar para o campo e trabalhar na agricultura ou em barragens. Trinta anos se passaram e o horror mantém-se vivo em Tuol Sleng e em Choeung Ek - uma lembrança para que a loucura megalômana do homem, um dia, tenha fim.

O Khmer Vermelho transformou as escolas em centros de detenção. Essa é Tuol Sleng ou S-21, uma antiga escola de segundo grau no centro de Phnom Penh. Estou em uma das celas coletivas para tortura (Foto: avikbangalee).

Celas individuais (Foto: avikbangalee)

De S-21, os detentos eram levados a Choeung Ek, o campo de extermínio nos arredores da cidade. Existiam vários espalhados pelo país. Este da capital foi transformado em museu e possui uma pagoda com restos e crânios de alguns dos que lá pereceram. Estima-se que 3 milhões de pessoas foram mortas em 4 anos.

 Para evitar vinganças tardias, ninguém era poupado.

Avik, o fotógrafo recém-contratado da organização, me acompanhou nessa viagem, produzindo retratos incríveis. Veja mais de seu trabalho no Flickr. O álbum completo do Camboja está nesse link (para os preguiçosos: faça seu cadastro que vale a pena!).

Tanto ele, que chegara 5 dias antes, acompanhando o trabalho dos voluntários, quanto eu, de passagem, compartilhamos a mesma opinião - o máximo que conseguimos explorar da vida khmer foi um rápido olhar por uma janela, estando esta, a maior parte do tempo, parcialmente obstruída.


Voltaremos. O Camboja já teve seus tempos áureos com Angkor Wat e a secular resistência às forças tailandesas. Suas construções e templos ainda têm muito a ensinar aos ocidentais.

:: Em KL, 18h24.
:: Ouvindo: Keane.


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Gong Xi Fa Cai

É Ano Novo chinês. Muitos fogos, dança de leões e oferendas pela cidade toda. Mas na verdade, o ano que se inicia não é chinês - é lunar. Coreanos e vietnamitas, dentre outros, também comemoram a data. Como a Malásia é 40% chinesa, o ano novo tem suas particularidades. As tradições são as mesmas do continente, mas há algumas diferenças nas comemorações.

Contando os dias pela lua, os chineses entraram no ano 4747 - e um novo início sempre coincidirá com o começo da primavera, também. Este é o ano do tigre, terceiro animal que se apresentou a Buda quando este convocou uma reunião. Somente doze deles atenderam ao chamado e, em agradecimento, cada um ganhou um ano na astrologia chinesa. Em ordem: rato, boi, tigre, coelho, dragão, cobra, cavalo, cabra, macaco, galo, cão e o javali, por último.

A virada, nesse ano, caiu no dia 14 de fevereiro. Aqui, o feriado oficial tem dois dias - porém, como um deles caiu no domingo, ganha-se um dia útil a mais na contagem final (isso para qualquer data festiva que caia no domingo). Ou seja, também tive um descanso prolongado: de sexta até terça de carnaval. ; )

A festa, contudo, dura quinze dias. É a data mais importante que os chineses comemoram (aqui, alguns amigos meus diriam 'ah, e a revolução?!', mas eu os mandaria calar a boca). Os cinco primeiros dias são dedicados às visitas e ao agradecimento: passa-se cada um deles com a família, a família dos sogros, com os mortos (sim, eles visitam o cemitério no ano novo), no templo e finalmente, com os amigos.

Meu professor de mandarim convidou a mim e outros brasileiros para um jantar de ano novo, com sua família. Melhor jeito de experimentar essas tradições não haveria! : )

O bairro em que eles vivem é habitado, predominantemente, por chineses. Daí, ao longe pode-se ver a fileira de lanternas vermelhas acesas nas entradas das casas, que só serão retiradas ao fim dos quinze dias. Queimam-se muitos fogos, para afastar os maus espíritos. Além do vermelho, o amarelo também é usado na decoração, simbolizando prosperidade. É comum ver desejos escritos com tinta preta em tiras de papel vermelho também na entrada e por toda a casa. O preto representa a água e a sabedoria; e o vermelho, o fogo e o sucesso. Em conjunto, causam ebulição - e é por ela que os chineses acreditam que as coisas mudam. No dia anterior ao feriado, nossos colegas de escritório levaram tinta e papel para praticarmos nossos desejos de prosperidade. Olha só que linda, a minha escrita:

 
Colei ao lado da minha mesa de trabalho. A frase da esquerda significa "Que todos os seus desejos se realizem". A da direita pode ser traduzida como "Grande fortuna, grande prosperidade" (grande na extensão, não é 'muita' em quantidade, me explicaram).
 
Ao chegarmos à casa do professor, fomos recepcionados pelo seu sogro que nos levou para conhecer toda a família. São seis irmãos e todos moram próximos. De casa em casa fomos recebidos com muita festa, alegria, chá e comida - muita comida. Assim, soubemos da história da família, do novo casal formado no último 31 de dezembro e também a história de cada cookie e da torta especial de ano novo. Uma dica é se estiver satisfeito, sempre deixar algo no prato e na xícara. Vazio, para eles, não signfica saciedade, mas sim que você ainda quer mais.


Um pedacinho da família do professor, fazendo sinal de 'Feliz Ano Novo'! Eles não poderiam passar por brasileiros?? : )
A mocinha do meu lado, na foto, é minha xará! :D

 Depois de quase uma hora degustando os quitutes é que nos avisaram que o jantar estava servido. E que jantar!! Todos se sentam à mesa - que deve ser redonda, para favorecer o relacionamento e a união da família. E como nas nossas celebrações, tudo é servido com bastante fartura, para trazer sorte e  felicidade. Sempre há arroz e peixe, para trazer prosperidade e dinheiro, respectivamente. Também há um tipo especial de macarrão para a data, que simboliza vida longa. E as mexericas, ah! Chineses as chamam de 'laranjas da sorte' e durante toda a festa esse é o modo de desejar prosperidade aos queridos: levando muitas frutas para casa, enfeitando o altar com elas, espalhando pelos cômodos... e comendo, principalmente! 

Quase que o altar não aparece!

O sogro nos explicou sobre as entidades que eles veneram e como fazem pedidos a elas. Em seguida, o professor nos explicou da tradição do ang pao (tradução literal: envelope vermelho). Assim como os cristãos trocam presentes no Natal, as crianças e os solteiros de cada família chinesa, durante a festa, recebem envelopes, que não precisam ser vermelhos, com dinheiro. Isso é o presente deles - os filhos casados também entregam ang paos aos pais anciãos. Eu, claro, ganhei um!

 
Meu ang pao! Até que enfim minha solteirice serviu pra alguma coisa! :P
 
Ainda restavam mais duas casas para visitar - e lá fomos nós, conhecer o resto da família. Ao fim da noite e dos jantares, éramos cinco brasileiros felizes da vida, com tamanha recepção. Eu fiquei muito lisonjeada com o cuidado, o carinho e os muitos elogios também (minha beleza é exótica pra eles). Foi o primeiro ano novo chinês que comemorei e aprovo! Esse povo realmente sabe se divertir. Que venham os outros!

Gong Xi Fa Cai (Feliz Ano Novo)!!!


: : Em KL, 01h03, já de quinta.
: : Ouvindo: Oasis.

Batu Caves e o Thaipusam

Dentre todos os lugares de adoração existentes na Malásia, Batu Caves reserva algo a mais na escala do exótico e do assustador.

As cavernas ficam em Gombak, a 13km do centro de Kuala Lumpur. Seu nome deriva do rio que corta as montanhas, Sungai Batu. Primeiro usadas para mineração, em 1891 receberam a primeira estátua sagrada de Lorde Muruga, filho de Shiva e Parvati, irmão de Ganesha. Muruga é tido como o deus da guerra e da vitória, sempre representado portando uma lança - chamada de Vel -, presente de sua mãe. No ano seguinte, o local passou a ser o ponto central do festival de adoração, o Thaipusam - que, certamente, não é uma experiência para os fracos.

A transformação das minas em santuário aconteceu por conta de um mercador indiano, que também fundou o templo Sri Mahamariamman, perto da Chinatown de KL. Conta-se que ele foi inspirado a transformar a caverna principal em templo porque sua entrada lembra a ponta do Vel que Muruga carrega consigo. No total, o lugar possui 3 grandes cavernas e algumas outras menores. Na base das montanhas, existem duas cavernas - um museu e uma galeria de arte, com representações de diversas divindades e outras estátuas que contam a história de como o deus hindu venceu o demônio Soorapadam. Para chegar à Caverna Catedral, é preciso encarar uma subida com nada menos que 272 degraus - no sol e no calor escaldante dessa terra. No meio do caminho, animais: pombos, cobras e muitos - muitos - macacos. Leve amendoim para eles, se não quiser ser atacado.

Em 2006, foi inaugurada, na base da colina, a maior estátua de Lord Muruga do mundo. Ela demorou 3 anos para ser construída e possui 42.7 metros de altura. Parte dessa megalomania que os asiáticos têm, ela também prova que o festival malasiano é o maior Thaipusam do mundo, fora da Índia.

 
Lorde Muruga. A estátua custou RM2.5 milhões e foi feita com 1550m³ de concreto, 250t de barras de aço e 300L de tinta dourada de origem tailandesa
(Foto de domínio público)

A adoração é feita pelos indianos tâmiles, mas aqui na Malásia é comum encontrar alguns chineses, também devotos. Ela ocorre sempre na lua cheia do mês Thai do calendário tâmil (entre fim de Janeiro e começo de Fevereiro). Nesse ano, aconteceu no último sábado, dia 30 de janeiro. Os fiéis preparam-se para pagar as promessas por meio do jejum. Raspam as cabeças e agradecem as graças recebidas por meio de oferendas e do sofrimento, carregando kavadis (que significa, literalmente, 'fardo'). O kavadi pode ser um simples pote carregado de leite até altares inteiros, com imagens de Muruga, montados sobre os ombros dos homens. Eles podem medir até 6 metros de altura e pesar até 200 quilos. Pra acompanhar, são passados ganchos no corpo dos devotos, em que são amarradas cordas. Também penduram-se limões, laranjas e cocos. Pra terminar, lanças tipo Vel são colocadas atravessando a língua e as bochechas, para evitar que eles falem algo e concentrem-se na penitência. Assim, 'vestidos para a festa', saem do templo no centro de Kuala Lumpur e caminham até Batu Caves. Durante toda a peregrinação, estão em transe. Após subirem os 272 degraus e agradecerem ao deus, é que a provação acaba e os ganchos são retirados.

Ah, sim. Durante todo o trajeto, os penitentes são acompanhados por toda sua família, cantando e dançando. Músicos com tambores e flautas também não poderiam faltar.




Em um só dia, Batu Caves recebe 1,5 milhão de pessoas. Cheiros, cores e sons se misturam nesse lugar, abarrotados de fiéis, turistas enlouquecidos pela visão e aventureiros, que também querem experimentar a adoração na pele.

 

Como se trata de um festival religioso, existe todo um protocolo e uma etiqueta. Ouvi de um indiano que vai todos os anos, se martirizar, que mulheres menstruadas são proibidas. Segundo ele, os incorporados atacam as pobrezinhas. E mesmo que eu não estivesse nessa situação, eu não iria. Não consigo ficar em espaços assim (vide foto abaixo) e certamente não tenho estômago pra acompanhar mortificações ao vivo.


É... exótico e assustador.


P.S.: Batu Caves, sem dúvidas, é um ótimo lugar pra se visitar. Existe uma área do rochedo que até é usada para escaladas. Mas, longe do mês Thai, por favor. 'Googleiem' aí, para fotos mais chocantes.

: : Em KL, 00h35, já de terça.
: : Ouvindo: Jamie Cullum.

Blogueiro preso - e a reação do governo

Eu já sabia que isso acontecia por aqui, mas até que você presencie, parece algo muito distante.

Khairul Nizam Abd Ghani, 29 anos, recém-casado, foi detido pela polícia na última terça-feira e mantido em cárcere por quatro dias por ter publicado no dia 22 de janeiro, em seu blog, "comentários depreciativos" sobre o antigo sultão de Johor, já falecido. O post, editado em malaio, foi retirado do ar e, até hoje, ninguém sabe que comentários foram esses - o texto ficou público por menos de duas horas. Não consegui achar cópias, links ou qualquer coisa semelhante que guardasse o que foi escrito.

O acusado!
No começo, a prisão foi justificada pelo "bom andamento das investigações". Na verdade, as autoridades nem sabiam em qual lei ou ofensa enquadrar o designer gráfico. Por fim, resolveram processá-lo por "uso impróprio de serviços ou ferramentas de rede", baseados na Seção 233(1)(a) do Ato de Comunicações e Multimídia, que diz que "qualquer pessoa que, conscientemente, inicia a transmissão de qualquer comentário, requisição, sugestão ou outra comunicação que seja obscena, indecente, falsa, ameaçadora ou ofensiva do caráter, com intenção de incomodar, abusar, ameaçar ou assediar outra pessoa é penalizada com multa não excedendo 50 mil ringgit ou prisão de até um ano". A multa também é acrescida de mil ringgits por dia adicional de publicação/divulgação da ofensa.

Uma audiência foi logo arranjada e um defensor público tomou conta do caso. Na última sexta-feira, Khairul declarou-se inocente perante o juiz, após a leitura das acusações (elas ainda levavam o agravante de que "a intenção do acusado foi a de ferir os sentimentos da família real de Johor e do povo"). O defensor, em sua fala, pediu à Corte que impusesse a menor multa possível ao réu, já que este entregou-se espontaneamente às autoridades. O fato de ser casado há apenas um mês também foi incluído na defesa, pois a prisão impediriria sua presença no banquete de casamento e, com os gastos para tanto, sua esposa conseguiu levantar apenas 5 mil ringgit. Ao argumentar que as alegações nem eram tão graves, ouviu do juiz:

- Nós estamos falando sobre uma instituição real que, junto a outras, garante a estabilidade de nosso país. Eu não concordo com a visão do defensor neste caso. (Clique aqui para entender o sistema político da Malásia)

Uma fiança - fiança, não a multa - de 5 mil ringgit foi imposta e uma nova audiência foi marcada para o dia 31 de março.

No meio disso tudo, o governo se manifestou a respeito. Leia abaixo o que o Ministro do Interior disse sobre o caso, exatamente como foi publicado nos jornais:

"Que o caso dele seja uma lição a outros que pensam que podem expressar-se abertamente sem preocuparem-se com as repercussões".

Vocês que me digam algo, agora. O meu IP é malaio e eu não tenho dinheiro para pagar fiança nem multa.


: : Em KL, 01h40, já de domingo.

Idade avançada

Ainda me recuperando do #yorais, qual não é a minha surpresa ao ler a seguinte frase no jornal, hoje:

"Se eles podem fazer 'Avatar', eles podem fazer qualquer coisa"

Isso foi dito pelo ex-Primeiro Ministro Mahathir Mohamad, em um pronunciamento oficial, como exemplo de quão ardilosa é a estratégia norte-americana para atingir os muçulmanos. Ele afirmou que os ataques de 11 de Setembro foram planejados dentro do próprio país, pra que estes tivessem uma razão para começar a guerra. A tecnologia dos homens brancos é tão avançada que todos se deixaram levar tanto pela fantasia do filme como pelo teatro das Torres Gêmeas.

Sem justificar o mérito do filme ou envolver teorias conspiratórias, analisemos a (in)felicidade de Mahathir ao expor sua opinião. Justo ele, que é considerado o Juscelino Kubitschek da Malásia - foi em seu governo que construíram as Petronas Towers. Ele governou o país por mais de vinte anos e conduziu sua modernização.  Os malaios o adoram e sonham com o dia que o Partido quererá levá-lo ao poder novamente. Mas... AVATAR?!?!?!?!

A conclusão tirada pelos meus colegas de trabalho, asiáticos e muçulmanos, é que o problema do ex-Primeiro Ministro é o mesmo do Ministro das Comunicações: idade. Os velhinhos já estão caducando. O Partido precisa renovar seu quadro de líderes, todos remanescentes da época colonial.

Enquanto isso, a gente se diverte com as hashtags. E pra última notícia, é claro que existe uma: #iftheycanmakeavatar.

A matéria impressa segue abaixo, clique para ampliar a imagem. Quem quiser a url, basta acessar o site do The Star.



: : Em KL, 23h48.
: : Ouvindo: A-Ha e Depeche Mode (é, o que posso fazer? Born in the 8Os...)

Trending Topics boleh!

Muitos acreditavam que mídias sociais não funcionariam por aqui. A Malásia, provando ser diferente de seus vizinhos, sabe usar essa rede e o Twitter muito bem. Ontem foi sua estréia nos Trending Topics, com a hashtag #yorais.

Uma tentativa frustrada de controle à la Big Brother virou piada, quando o Ministro de Informação e Comunicação (ou 'aquele que cuida da censura') afirmou publicamente que o uso de mídias sociais deve ser evitado pelos muçulmanos - pois "são ferramentas criadas pelo Ocidente para corromper a cultura malaia". Ele disse mesmo, está tudo aqui, no The Star.

Sem querer, o Ministro Rais Yatim virou a nova celebridade dos tweets malasianos. A tag foi tão utilizada para criticar o pronunciamento que chegou ao Top 3 dos Trending Topics ontem à noite, por volta das 20h (hora local). A maior parte das piadas relacionava a idade avançada do político com a posição conservadora para com a internet. Os blogueiros daqui não deixaram por menos e várias postagens foram feitas sobre o tema.

Face = muka / Book = buku
- Aprendendo malaio no blog da Srta D! :D
 
"Rais é tão antigo que quanto Deus disse 'Faça-se a Luz', ele perguntou: 'Por que você está usando a língua do homem branco?"

É óbvio que o único modo de se controlar o que pode ser dito ou não dito no FB ou Twitter reside no bloqueio do acesso. Mas como estou em um país 'democrático', fazê-lo causaria mais desgastes do que alívio. As autoridades orgulham-se de serem exemplo para o convívio pacífico (?) entre as diversas culturas, a modernidade e as tradições islâmicas.

Então, inventemos uma historinha marota, quase jihadista. O povo compra - foi assim quando disseram que o melhor meio de prevenir a gripe H1N1 era usando máscaras, ou quando anunciaram que bebidas alcoólicas causam câncer.

Mas a internet não é tão fácil de ser controlada como as mídias ditas tradicionais e certamente a Malásia não quer assemelhar-se à China nesse ponto. É verdade, já tentei acessar clipes no YouTube e aparece a mensagem "Este vídeo não é permitido em seu país". Mas, genericamente falando, a internet ainda é um campo livre nesse lado do mundo (e que fique claro: eu nem queria ver sacanagem, viu?!).

A juventude malasiana não consegue viver sem seus Blackberries ou seus iPhones. Nasceram nessa era e com a vantagem de estarem no paraíso dos eletrônicos na Terra. Melhor que aqui, só Hong Kong.   *ah, Hong Kong... love!*

A tag truly Malaysian eleva o patamar das tuitadas - pelo menos, é assim que eles pensam. Ainda estamos esperando os comentários do Primeiro Ministro, em seu blog, em seu feed do Facebook ou até mesmo em seu Twitter.


:: Em KL, 00h09, já de quinta.
:: Ouvindo: The Editors.

P.S.: 'Boleh' é a expressão que eles usam pra pedir afirmação. É o verbo 'poder' usado como o 'né' dos goianos e o 'ok' dos americanos. Virou até lema do governo, anos atrás: Malaysia Boleh! (A Malásia pode!).

P.S. 2: Acabo de consultar a tag, o pessoal não pára de tuitar sobre o assunto! Coisa de lôco! Foi parar até na Wiki!