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"It's not violence"

Acompanhem a entrevista com o Ministro da Informação da Malásia. Junto com o Ministro do Interior, são os meus 'favoritos'. Este último foi quem justificou as prisões de blogueiros, no ano passado, em nome da segurança nacional - escrevi sobre isso aqui.


Para mim, a melhor parte é "It's not violence (...) You think we are Pakistan, we are Burma. (...) This is a democratic country".

ATUALIZAÇÃO (10/07, 08h20)

Este vídeo é legítimo, mas é da marcha realizada em 2007, antes das eleições que levaram o atual Primeiro-Ministro ao poder. Ainda estamos esperando videos de ontem. Por enquanto, temos fotos: http://aje.me/p1bDGF 

Das relações exteriores malasianas

Começou com a Tunísia e o governo da Malásia manteve-se calado. Os jornais limitavam-se a noticiar os confrontos como quem narra um jogo de bocha. Não havia comentários, análises políticas, nada.

Aí veio o Egito e, de repente, qualquer um se espanta: o governo malasiano, também baseado em uma ditadura teocrática (por mais que eles sempre rejeitem esse rótulo), defende publicamente as manifestações populares no país africano! O Primeiro Ministro, em vários de seus discursos desde o início da insurgência, afirma "em nome do governo e do povo da Malásia" que um dos efeitos da globalização é dar voz aos indivíduos. A solução no Egito passa pela vontade de seus cidadãos. Oi?

Uma operação de retirada de malaios do Egito foi iniciada no começo desta semana. A Força Aérea e a Marinha foram enviadas a Cairo e Alexandria para resgatar as 11 mil pessoas vivendo no país, a maioria estudantes universitários. Somando-se ao apoio democrático, outro fato também é curioso: os malaios estão sendo levados à Jeddah para de lá serem embarcados à Malásia! O apoio da Arábia Saudita é tamanho que o próprio Príncipe Abdullah está patrocinando alguns vôos - mas, não foi ele mesmo quem garantiu exílio a Ben Ali, o ex-presidente daquele país também do norte da África que a Malásia nem quis saber?!

Ok, ok, vamos tentar entender essa (in)equação. Externamente, a Malásia é vista como um dos países muçulmanos mais liberais, sendo exemplo para a emancipação democrática dentre as nações islâmicas. Lida bem com a China, os Estados Unidos (???) e possui inúmeras relações comerciais com o Irã - ninguém questiona as joint-ventures milionárias no ramo da construção civil e de oléo e gás. Enquanto isso, o repórter que noticia a manifestação anti-Mubarak em frente à Embaixada Norte-Americana de hoje de manhã é o mesmo que cobre o julgamento de mais um blogueiro preso por discordar de algum apontamento na política interna.

Se o Movimento dos Não-Alinhados ainda existisse, a Malásia certamente estaria nele. Seu desenvolvimento econômico nos últimos anos tem sido exponencial - sem alarde, porém. Garantir mercados para seus produtos é o que faz o Estado dançar como bem entende - sem a influência desta nação capitalista ou daquele governo teocrático. Hillary Clinton esteve aqui no começo do ano e o assunto "Irã" não foi levantado em nenhum momento. Iranianos têm entrada livre na Malásia e seus representanes políticos ou comerciais anunciam novas empreitadas com frequência. Mesmo sendo constitucionalmente islâmico, o país também aplica duras penas a jihadistas, perseguindo células de grupos indonésios e africanos. Ao contrário do que se passa com Tunísia, Israel, Egito, Arábia e Iêmen, a Malásia escolheu sozinha um lado: o próprio.

(Alguém aí já pensou, por acaso, no gasoduto Egito-Israel no meio dessa bagunça? Nas sabotagens que já começaram e no potencial de negócios para este país de cá, ao ver um governo desestabilizado e consumidores sem fornecimento?)

Uma pena que essa liberdade da política exterior não se reflita muito nas políticas nacionais. Mas, como eu já disse por aqui, isso é outra história, a ser contada longe da Ásia.


: : Em KL, 23h45.
: : Ouvindo os tambores do Ano Novo Chinês.

Blogueiro preso - e a reação do governo

Eu já sabia que isso acontecia por aqui, mas até que você presencie, parece algo muito distante.

Khairul Nizam Abd Ghani, 29 anos, recém-casado, foi detido pela polícia na última terça-feira e mantido em cárcere por quatro dias por ter publicado no dia 22 de janeiro, em seu blog, "comentários depreciativos" sobre o antigo sultão de Johor, já falecido. O post, editado em malaio, foi retirado do ar e, até hoje, ninguém sabe que comentários foram esses - o texto ficou público por menos de duas horas. Não consegui achar cópias, links ou qualquer coisa semelhante que guardasse o que foi escrito.

O acusado!
No começo, a prisão foi justificada pelo "bom andamento das investigações". Na verdade, as autoridades nem sabiam em qual lei ou ofensa enquadrar o designer gráfico. Por fim, resolveram processá-lo por "uso impróprio de serviços ou ferramentas de rede", baseados na Seção 233(1)(a) do Ato de Comunicações e Multimídia, que diz que "qualquer pessoa que, conscientemente, inicia a transmissão de qualquer comentário, requisição, sugestão ou outra comunicação que seja obscena, indecente, falsa, ameaçadora ou ofensiva do caráter, com intenção de incomodar, abusar, ameaçar ou assediar outra pessoa é penalizada com multa não excedendo 50 mil ringgit ou prisão de até um ano". A multa também é acrescida de mil ringgits por dia adicional de publicação/divulgação da ofensa.

Uma audiência foi logo arranjada e um defensor público tomou conta do caso. Na última sexta-feira, Khairul declarou-se inocente perante o juiz, após a leitura das acusações (elas ainda levavam o agravante de que "a intenção do acusado foi a de ferir os sentimentos da família real de Johor e do povo"). O defensor, em sua fala, pediu à Corte que impusesse a menor multa possível ao réu, já que este entregou-se espontaneamente às autoridades. O fato de ser casado há apenas um mês também foi incluído na defesa, pois a prisão impediriria sua presença no banquete de casamento e, com os gastos para tanto, sua esposa conseguiu levantar apenas 5 mil ringgit. Ao argumentar que as alegações nem eram tão graves, ouviu do juiz:

- Nós estamos falando sobre uma instituição real que, junto a outras, garante a estabilidade de nosso país. Eu não concordo com a visão do defensor neste caso. (Clique aqui para entender o sistema político da Malásia)

Uma fiança - fiança, não a multa - de 5 mil ringgit foi imposta e uma nova audiência foi marcada para o dia 31 de março.

No meio disso tudo, o governo se manifestou a respeito. Leia abaixo o que o Ministro do Interior disse sobre o caso, exatamente como foi publicado nos jornais:

"Que o caso dele seja uma lição a outros que pensam que podem expressar-se abertamente sem preocuparem-se com as repercussões".

Vocês que me digam algo, agora. O meu IP é malaio e eu não tenho dinheiro para pagar fiança nem multa.


: : Em KL, 01h40, já de domingo.

Cartas brasileiras - 02

"Oi querida, que bom receber notícias suas. Menina, que viagem cultural vc está nos proporcionando. Adorei as notícias e novidades. Por aqui quase tudo na mesma. Iniciamos os ensaios do coral. Está uma gracinha. No mais, só trabalho, trabalho e + trabalho. Sei que não foi uma decisão fácil a sua em deixar tudo e iniciar algo tão diferente. Mas a vida é muito rápida para perdermos as oportunidades que ela nos oferece. O que faz com que o mundo se mova são pessoas como vc que arriscam, e fazem a diferença.

Um beijão e que Deus te guarde e ilumine. Adorei o seu trabalho. Esses dias ainda estive refletindo sobre a minha verdadeira missão. Não tenho certeza de que é só isso que preciso desenvolver. Acredito em maiores realizações. Como fazer algo novo trabalhando 8 hs por dia, sendo dona de casa, esposa e mãe? É bom aproveitar enquanto vc tem menos demandas sociais para atender. Bjs mil, boa sorte, que o Senhor te abençoe e te guarde, livre de todo o mal e te dê sabedoria e paz. Fé. 

- A."

Olá!
Muito bom receber email seu, tava com saudade!
Realmente, não é fácil passar por isso, ter coragem pra arriscar e seguir em frente. Também não é fácil ficar aqui sozinha, sem namorado, longe da família. Me sinto um bebê às vezes, pois tenho de aprender tudo. Desde a andar na cidade até a fazer novas amizades, com os poréns e diferenças entre ocidentais e orientais. Tudo é novo, e eu tenho só eu mesma pra me motivar.

Sei como é difícil tentar algo novo, 'soltar as amarras'. Quanto mais o tempo passa, mais obrigações aparecem e de algumas você não consegue sair tão fácil. Por isso arrisquei. A cada ano, a vida se torna mais e mais complicada. Mas vc não precisa fazer nada tão radical, a mudança começa de pequeno. Mude o seu mundo e tudo começa a fluir.

Um beijo e muitas bençãos pra vc e toda sua família. Manteremos contato. Vc é sempre bem-vinda!

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Cá estou eu de novo. Sabe, eu já pertenci a esse mundo dos blogs várias vezes. E ainda nem tinham concebido esse nome bonito, mas que só serve para segregar os que se acham bons dos que têm certeza que são bons (e por isso, criaram a blogosfera). Ainda não existia Flickr, Twitter, Orkut, nem scripts. Era um mundo tão pacífico, cheio de linguagem HTML e hexadecimais feitos à base de muita paciência no bloco de notas. A internet me acompanha desde muito cedo e isso certamente influenciou minha cultura, minhas amizades e pensamentos. Já tentei me desligar, mas, felizmente, não consegui. A rede também me trouxe novidades, descobertas, ofertas de estudo e de trabalho. E é por isso que voltei.

Não que minha mão já não se agüentava de tanta agonia. Era chato só produzir artigos científicos, relatórios técnicos e menções (vida de servidor público!). Ex-chefe, se você estiver lendo isto, saiba que eu gostava do meu trabalho. Só me consumia umas 14 horas do dia, mas tudo bem. Minha cabecinha não prestava pra mais nada depois disso.

As obrigações me fizeram desistir de dois blogs anteriores. Meus cadernos, blocos e rabiscos do dia-a-dia acabaram esquecidos no meio do estresse. Ah, mas como fazia falta... Daí, já que agora eu arrisquei tudo para estar aqui, decidi retomar velhos hábitos para ajudar na adaptação. Mas não vou fazer dieta, passar fome, puxar peso ou suar horrores no squash. Uma caminhada básica, fazer ioga, nadar e escrever, isso sim. Porque preciso.

Este blog é o meu mundo particular, meu espaço pra lidar com minhas vozes internas e os desafios que me aguardam. A Malásia, definitivamente, foi o meu pulo do gato no meu ano do Boi. Sou uma pessoa abençoada e muito agradecida por tudo que tem acontecido nos últimos meses. É como se eu soubesse que isso já me esperava, mas eu precisava amadurecer para receber o presente. Aconteceu no momento certo.

As postagens e os comentários seguem o horário oficial de Brasília. Algumas vezes, pode acontecer de os textos não terem sentido algum; será só eu fazendo algum tipo de faxina. Considere esta incursão, portanto, uma dupla jornada: a Ásia pelas lentes dos meus óculos e eu mesma pelas suas lentes. Se você não ficar satisfeito com o que encontrar por aqui, eu não dou a mínima. Eu não preciso de 45 mil seguidores, só preciso expor o que eu penso.

:: Em KL, 01h08, já de terça.
:: Ouvindo: Alejandro Sanz.