Descanso

Esse post será curto. Curtíssimo. Rápido e certeiro.

Sumi porque estava de férias, mais do que merecidas. Matei um pouco das saudades de alguém muito especial, dei uma de turista em Kuala Lumpur e peguei um bronze em Pulau Redang, uma ilha no Mar do Sul da China.

É por momentos assim que eu trabalho tanto; eu mereço tudo isso, sempre.

Long Beach, Pulau Redang
 
 Já se pode ver os corais do píer!
 
Coral e um peixinho esperto

Oi, Nemo!
 
Belo!
Long Beach
 
O mar

No restaurante

Ainda curto preguiça, então...volto qualquer dia. Até! =)

: : Em KL, 22h36.
: : Ouvindo: Cake.

Ipoh

Duas semanas atrás, passei uns dias em Ipoh, capital do estado de Perak e segunda capital administrativa durante o domínio britânico. A cidade foi fundada por volta do ano 1880 por conta das minas de estanho, ocupadas pelos japoneses durante a II Guerra. Ao contrário de Melaka, que chama atenção pela arquitetura, Ipoh é mais conhecida por suas paisagens - enormes cavernas, usadas como santuário para templos budistas e centros de cremação. Como uma típica cidade mineradora, ela teve sua breve glória no século passado e de uns trinta anos para cá, vive das empresas que extraem calcário e argila de suas montanhas. As minas e todas as contruções relacionadas a essa atividade foram abandonadas.

Ipoh fica a uma hora de Cameron Highlands e o seu clima também é mais ameno que o de Kuala Lumpur, com uma brisa fresca soprando durante todo o dia. Fiquei na casa de um ex-colega de trabalho da ong, que acabou se tornando um grande amigo. Max abrigou a mim e outros durante o fim de semana e também nos serviu de guia, levando a todos os cantinhos da cidade enquanto contava histórias. Seu pai veio da China para trabalhar nas minas dos ingleses, uma rota parecida com a maioria da população de Ipoh. 70% de seus habitantes são chinese malaysian e isso reflete no modo de conduzir negócios, na cultura e na culinária - que, por tudo que é verdade nessa vida, é muito boa. MUITO. As frutas e os vegetais são frescos, os grãos têm gosto e há carne de porco em todos os lugares! *olhinhos brilhando* Junto a Penang, também de maioria chinesa, Ipoh faz jus à fama de comida boa e barata.

Visitar a cidade com um local faz toda a diferença para entender os motivos que levaram à construção de tal estrada ou sob qual motivo uma parte da serra foi destruída. Ipoh é cheia de história mas, assim como Melaka, o governo não quer desenvolvê-la: ainda há nativos da terra que são excluídos dos programas sociais e vivem isolados na mata porque não aceitaram o islã. A maior parte das construções que resistiram ao tempo são britânicas ou chinesas. E, já que a grande parte da população não é malaia, não há incentivos industriais ou fiscais para abertura de empresas na região - o governo não quer desenvolvê-la, também por conta da questão racial. "Sinto a discriminação desde que nasci e fico triste porque quando o meu filho crescer, isso ainda não vai ter mudado, por mais que a gente se revolte e lute", disse Max. E a frustração é visível, por todos - até eu me irrito com certas políticas daqui.

Foram dois dias intensos, nos quais pude conhecer praticamente toda a cidade. As fotos falam por si (o álbum completo está no Flickr).

Entrada do Templo Sam Poh Tong 

Algumas das muitas e diferentes estátuas de Buda do templo

A caverna acaba em um jardim lindo com um laguinho de tartarugas (elas simbolizam longevidade para os chineses). Fazia tempos que não sentia tão tranquila como nesse lugar. A cadeia de caverna isola o jardim do resto do parque: sobram você, o silêncio e o céu azul.

Templo Kek Lok Tong: este fica do lado oposto de Sam Poh Tong. É mais turístico e possui inúmeras estátuas de ouro. As formações naturais, lá, ainda estão se modificando; por isso, a caverna também recebe estudiosos e fãs de estalagmites.

 Uma das galerias da caverna, que também acaba em um lago e áreas de piquenique (olha a luz entrando pela esquerda!)

Old Town Ipoh: após o declínio da mineração, muitas casas e prédios foram simplesmente abandonados. Hoje há um projeto de restauração dessa parte da cidade com o estabelecimento de novos negócios. Infelizmente, não há interesse do governo quanto ao patrimônio histórico.

Olha só como fica linda depois de pronta!

Ipoh Town Hall


: : Em KL, 17h26.
: : Ouvindo: Foo Fighters.

Historical Melaka

Pense em um porto para o qual sopram ventos tranquilos, um lugar onde se possa descansar das últimas tempestades. Pense também que esse porto fique exatamente entre a Índia e a China e, logo, o comércio na região também é valorizado. Pense que, durante 300 anos, vários povos tentaram controlar o local e cada um deles deixou sua marca na arquitetura, na culinária, no modo de vida e nos traços das pessoas. Isso é Melaka, uma cidadezinha a 150km de Kuala Lumpur - quem a controlava era dono dos Estreitos de Malacca, passagem garantida para as mercadorias e riquezas da Ásia. Portugueses, holandeses, chineses e ingleses tiveram sua fase - tanta riqueza histórica e cultural garantiu-lhe ser um dos Patrimônios da Humanidade, desde 2008.

No último sábado, eu, Roxanne (a estagiária de Hong Kong) e suas colegas de apartamento fomos parar lá, para uma day trip. Tirando os imprevistos dignos de um "Malaysia boleh", a viagem foi muito boa e definitivamente voltarei para um fim de semana prolongado: Malacca transpira História.

Ninguém sabe ao certo como a cidade surgiu, mas a lenda conta que há uns 600 anos, um príncipe de Sumatra, ao fazer uma viagem pela região, pousou ali. Deslumbrado com a posição estratégica e com a tranquilidade da terra, resolveu ficar. Melaka era o nome da árvore que lhe dava sombra e daí tudo começou a acontecer do outro lado do estreito indonésio. Muitos dizem que 'melaka' descende de uma outra palavra árabe que significa 'mercado' - mais um indício de que a região é há muito tempo conhecida.

Após o estabelecimento da província, mercadores chineses passaram a comercializar seda e porcelana com os malaios (ainda não muçulmanos, naquela época), antes da chegada dos europeus. Como as chinesas eram proibidas de deixar o país naquela época, seus conterrâneos não tinham outra opção a não ser constituir família com as locais: indígenas, javanesas, balinesas... daí surgiu a primeira mistura cultural da cidade, os Baba-Nyonyas - expressão utilizada para designar 'senhor' e 'senhora' em dialetos locais. Essa comunidade desenvolveu língua, arte, culinária e arquitetura próprias e podem ser facilmente reconhecidos nas ruas de Malacca e Penang. Bem-educados, falam malaio, baba e chinês, podem ser cristãos, budistas ou muçulmanos e sempre - SEMPRE - serão empresários ricos e de renome (mais do que os chineses malasianos, até).

Interior de uma casa Baba-Nyonya em Melaka. Hoje, o andar térreo abriga um restaurante e os donos moram no andar de cima.

A pia. =)

Os primeiros europeus a chegar a Melaka foram os portugueses, em 1511, fazendo de lá mais uma parada em sua rota de especiarias. Foram eles quem trouxeram os temperos e as pimentas da Índia para o Sudeste Asiático, além de aumentarem o comércio com a China e as ilhas da Indonésia. Uma fortaleza foi erguida e lá dentro havia dois palácios, um castelo, uma sala de reuniões e cinco igrejas. "A Famosa" controlou o comércio de seda e porcelana da China, têxteis da Índia, cânfora de Bornéu, ouro e pimenta de Sumatra, estanho da península malaia, sândalo de Timor e noz-moscada e cravinho das Ilhas Moluccas.

Igreja de São Paulo no topo da montanha, cercada pelo forte. À esquerda, o Rio Melaka (Francis Valentijn, 1726)

Em 1641, após uma resistência de sete meses, o forte foi tomado pelos holandeses. Estes mantiveram a arquitetura, mas reformaram a casa: as construções ainda são de um vermelho forte, mas os brasões portugueses deram lugar aos da coroa laranja. Alguns canais também foram abertos. Acontece que, no século XVII, Melaka já não era tão importante assim na rota das especiarias e com a tomada napoleônica na Europa, a Holanda estava muito mais preocupada com as suas terras baixas lá do que em outro lugar. Aproveitando-se disso, a Companhia das Índias Orientais, empresa britânica, ocupou Malacca em 1795 - unindo a península malaia sobre o dominío dos ingleses. Foi aí que decidiram destruir todas as construções militares já existentes e erguer outras segundo a arquitetura Tudor. Atualmente, as ruínas da Fortaleza de Malacca e a entrada do forte A Famosa são os pontos mais visitados pelos turistas.

Fortaleza de Melaka
 
Entrada dA Famosa

Arquitetura portuguesa e coloração holandesa

Melaka é um ótimo lugar para se divertir e aprender História ao mesmo tempo. Seus becos e construções me lembram muito as cidades coloniais da minha região - e sempre fico impressionada ao imaginar como seria viver a época das grandes navegações. Tantos desafios, mas os europeus chegaram tão longe! Quando eu iria pensar que usaria meu idioma pátrio para conversar com um asiático que nunca saiu deste lado do mundo? Uma noite na praça portuguesa ajudou a controlar a saudade da atmosfera interioriana e da comida de casa. Os locais descendentes dos lusos são chamados de Kristang (cristão, em malaio). Fiquei sabendo que lá também tem festa junina esse mês e até vi carro de boi!
 
Infelizmente, os malaios não dão o devido valor à cidade e nem à sua história. Apesar de Patrimônio da Humanidade, a maior parte de seus feitos não foram realizados por esse grupo étnico - daí, o goveno não se importa. Pode-se ver a modernidade avançando sobre o centro velho de Melaka, carros transitando em áreas de ruínas e não há controle do fluxo de pessoas em cada ponto histórico. Uma pena - mas em um país onde a maioria muçulmana muda os livros didáticos e ensina que eles sempre estiveram nesta terra, tudo é possível. Uma maioria planejada, logicamente.

Melaka e seu estreito marcaram o início da globalização no Sudeste Asiático.  Famosos, até estrelaram o último "Alice no País das Maravilhas"!

Casa 3 em 1: arquitetura portuguesa e design sino-holandês

 Acesse o Flickr para mais fotos.

:: Em KL, 03h41, já de quinta-feira.
:: Ouvindo: Stereophonics.

Happy Birthday, Buddha!

Mais um feriado com motivos religiosos na Malásia. Dessa vez, no último 28 de maio, foi o Wesak (ou Vesak), celebração budista em comemoração ao aniversário de iluminação de Gautama, o primeiro Buda. Além daqui, praticamente todo o Sudeste Asiático, a China e - é claro - a Índia e o Sri Lanka prestigiam a data. O evento também é marcado pelo calendário lunar e, por convenção, acontece na primeira lua cheia de maio.

Em Kuala Lumpur, uma procissão de aproximadamente 4km é realizada após o pôr-do-sol, passando pelo centro histórico da cidade. Centenas de seguidores carregam velas e caminham lado a lado com pequenos carros alegóricos, todos coloridos e iluminados, com variadas imagens de Buda. A entoação de mantras e o ar carregado de incenso dão uma aura toda elegante e serena à caminhada. O ponto de partida e o destino final é o templo que fica em meu bairro, Brickfields - aliás, lugar da maior concentração de casas de diferentes religiões da capital. Da minha janela vejo um templo budista, dois hindus, uma mesquita, uma igreja evangélica e uma católica. Aqui, todos vivem em paz.

Enquanto eu via tudo da sacada, meus amigos entraram no frevo e acompanharam os fiéis em todo o percurso. Aqui estão algumas fotos.

Dentro do templo budista de Brickfields (Foto: Rajibul Hasan)


Velas e agradecimentos (Foto: Rajibul Hasan)


Buda e um de seus discípulos (Foto: Rajibul Hasan)


Um dos carros da procissão (Foto: Rajibul Hasan)

Belo, belo... (Foto: Rajibul Hasan)




: : Em KL, 15h30.
: : Ouvindo: Incubus.

Pulau Jerejak

Dentro da programação de trabalho da ONG, há um treinamento chamado MCE - MAKNA Continuous Education, realizado três vezes por ano. Participei de um no fim do ano passado, perto do Natal, e o primeiro de 2010 aconteceu semana passada, em Pulau Jerejak (Ilha Jerejak, em malaio), no estado de Penang. O estado em si é também uma ilha, ligado à península por uma das mais belas pontes que eu já vi. Ao atravessá-la, Jerejak fica ao sul, do seu lado esquerdo e só se chega lá de barco.

A maioria dos habitantes de Penang nunca a visitou, pois até o século passado, Jerejak era conhecida como 'a Alcatraz da Malásia'. A ilha abrigava uma prisão de segurança máxima para traficantes de drogas e comunistas e também um sanatório/hospital para pessoas com hanseníase e tuberculose - na verdade, uma quarentena permanente. Durante a época colonial, a primeira parada dos imigrantes, antes de chegar à terra firme, também era lá, para inspeções de saúde.

Em 1993, todas essas instituições foram desativadas (demolidas, literalmente) e os presos foram transferidos para cadeias em Johor, estado que faz fronteira com Cingapura. Restaram apenas os pescadores, que passaram a viver na outra margem quando a prisão foi construída. Hoje, a única coisa a se fazer em Jerejak é curtir o resort que foi lá estabelecido, em 2004. Apesar da curta distância entre a ilha e a península (é possível ver os carros trafegando na orla), as fugas eram dificultadas pelas colônias de águas-vivas, propositalmente plantadas ao redor de Jerejak. Sem controle, elas proliferaram a tal ponto que não se pode mais tomar banho no mar.

Além do treinamento, sobraram as atividades e a piscina do resort: passeio de bicicleta, vôlei de praia, escalada, tirolesa, tênis de mesa, karaokê (this is Asia, man!)... em três horas, praticamente rodamos a ilha toda, fazendo trilha. Pode-se ver o que sobrou dos antigos prédios e se surpreender com a floresta, que tomou esses espaços de volta para si em pouco mais de dez anos.

Quatro dias foram mais do que suficientes - entediantes até, em alguns aspectos. Pelo menos deu pra descansar a mente e ter algumas novas idéias para a labuta diária. Agora, preciso voltar a Penang e conhecer seus templos e sua história.

Fotos aqui.

: : Em KL, 20h06.
: : Ouvindo: Audioslave.

P.S.: Para quem ainda não sabe,  o blog agora tem uma Caixinha do SAC, no menu à direita. Na verdade, é o meu Formspring, um formulário em que você pode perguntar qualquer coisa, anonimamente - mas eu deixo vocês usarem para dúvidas, sugestões, críticas, reclames, propostas comerciais e afins. Use-o bem, pois o espaço é limitado (pro questionador, não para mim. Então estejam preparados!). Fiquem à vontade para explorarem mais as minhas viagens e seus detalhes que, muitas vezes, só são mencionados em uma mesa de bar - porém, para ler as respostas, é necessário ir para a página principal do formulário, aqui.

Uma janela no Reino do Camboja

Ahá! Todos já estavam pensando que eu tinha abandonado meu querido boizinho... mas é só a correria mesmo, gente. Fim de ano/começo do ano voou e eu nem reparei! Muitos projetos e cálculos a serem finalizados no trabalho e alguns contratempos até a aprovação do orçamento para 2010. Foram muitas tempestades; porém, enquanto espero pela próxima, volto-me ao labor de escriba (uh, que poético!).

Nossos escritórios em Dubai, Cingapura e Hong Kong estão lindos e encaminhados. Logo, chegou o tempo de procurar novas aventuras. Para isso, meu chefe resolveu me mandar para o Camboja, a fim de visitar o Sihanouk Hospital, que atende só aos necessitados e onde todo mundo recebe tratamento, de graça - inclusive para doenças crônicas. Conheci uma senhora que já era paciente de lá há quase 10 anos e todo mês recebia seus remédios para hipertensão, gratuitamente.

Estive na capital Phnom Penh (leia-se 'Pi-nom Pen') por dois intensos e empoeirados dias. Após a colonização francesa, uma ditadura socialista e uma invasão vietnamita, a maioria dos cambojanos sobrevive com menos de um dólar por dia. O país é rico em recursos e belezas naturais mas sofre com a falta de organização e qualificação. Só as áreas turísticas são asfaltadas e não há muitas indústrias, tampouco edifícios altos. O clima, mais ameno que o de Kuala Lumpur, compensa a poeira - de noite, pode-se até dormir sem ligar o ar condicionado. Apesar da pobreza e das dificuldades, as pessoas estão sempre sorrindo, talvez devido ao fato de serem budistas. No meio do mar de motocicletas carregando famílias inteiras e tuk-tuks com a produção do mês, você vê um BMW e um Bentley. Com certeza, o Camboja não possui classe média - e a manutenção da miséria continua a beneficiar uma camada mínima do seu povo.

Eles vivem assim, e vivem sorrindo... (Foto: avikbangalee)

 Crianças, sempre sorrindo... (Foto: avikbangalee)

Vendedora de verduras, umas das tantas que encontramos pelo caminho (Foto: avikbangalee).

Entre o aeroporto, a reunião com os diretores do Hospital e a partida, tive tempo de conhecer dois lugares icônicos para a história recente daquele país - o antigo centro de detenção e o campo de extermínio do Regime Pol Pot, responsável por um dos maiores genocídios da Ásia. Ao andar pelas celas e pelas valas comuns, é impossível ouvir algum som - nem mesmo o vento sussurra entre as barras de aço e o arame farpado. Todos se sucumbem perante a perplexidade do sistema Kampuchea, que matava qualquer um que parecia ser um traidor. Durante quatro anos, todos aqueles com algum nível de instrução foram mortos: intelectuais e formadores de opinião eram os primeiros da lista. O resto da população foi forçada a migrar para o campo e trabalhar na agricultura ou em barragens. Trinta anos se passaram e o horror mantém-se vivo em Tuol Sleng e em Choeung Ek - uma lembrança para que a loucura megalômana do homem, um dia, tenha fim.

O Khmer Vermelho transformou as escolas em centros de detenção. Essa é Tuol Sleng ou S-21, uma antiga escola de segundo grau no centro de Phnom Penh. Estou em uma das celas coletivas para tortura (Foto: avikbangalee).

Celas individuais (Foto: avikbangalee)

De S-21, os detentos eram levados a Choeung Ek, o campo de extermínio nos arredores da cidade. Existiam vários espalhados pelo país. Este da capital foi transformado em museu e possui uma pagoda com restos e crânios de alguns dos que lá pereceram. Estima-se que 3 milhões de pessoas foram mortas em 4 anos.

 Para evitar vinganças tardias, ninguém era poupado.

Avik, o fotógrafo recém-contratado da organização, me acompanhou nessa viagem, produzindo retratos incríveis. Veja mais de seu trabalho no Flickr. O álbum completo do Camboja está nesse link (para os preguiçosos: faça seu cadastro que vale a pena!).

Tanto ele, que chegara 5 dias antes, acompanhando o trabalho dos voluntários, quanto eu, de passagem, compartilhamos a mesma opinião - o máximo que conseguimos explorar da vida khmer foi um rápido olhar por uma janela, estando esta, a maior parte do tempo, parcialmente obstruída.


Voltaremos. O Camboja já teve seus tempos áureos com Angkor Wat e a secular resistência às forças tailandesas. Suas construções e templos ainda têm muito a ensinar aos ocidentais.

:: Em KL, 18h24.
:: Ouvindo: Keane.


P.S.: O blog conta agora com uma Caixinha do SAC, no menu à direita. Na verdade, é o meu Formspring, um formulário em que você pode perguntar qualquer coisa, anonimamente - mas eu deixo vocês usarem para dúvidas, sugestões, críticas, reclames, propostas comerciais e afins. Use-o bem, pois o espaço é limitado (pro questionador, não para mim. Então estejam preparados!). Fiquem à vontade para explorarem mais as minhas viagens e seus detalhes que, muitas vezes, só são mencionados em uma mesa de bar - porém, para ler as respostas, é necessário ir para a página principal do formulário, aqui.

Gong Xi Fa Cai

É Ano Novo chinês. Muitos fogos, dança de leões e oferendas pela cidade toda. Mas na verdade, o ano que se inicia não é chinês - é lunar. Coreanos e vietnamitas, dentre outros, também comemoram a data. Como a Malásia é 40% chinesa, o ano novo tem suas particularidades. As tradições são as mesmas do continente, mas há algumas diferenças nas comemorações.

Contando os dias pela lua, os chineses entraram no ano 4747 - e um novo início sempre coincidirá com o começo da primavera, também. Este é o ano do tigre, terceiro animal que se apresentou a Buda quando este convocou uma reunião. Somente doze deles atenderam ao chamado e, em agradecimento, cada um ganhou um ano na astrologia chinesa. Em ordem: rato, boi, tigre, coelho, dragão, cobra, cavalo, cabra, macaco, galo, cão e o javali, por último.

A virada, nesse ano, caiu no dia 14 de fevereiro. Aqui, o feriado oficial tem dois dias - porém, como um deles caiu no domingo, ganha-se um dia útil a mais na contagem final (isso para qualquer data festiva que caia no domingo). Ou seja, também tive um descanso prolongado: de sexta até terça de carnaval. ; )

A festa, contudo, dura quinze dias. É a data mais importante que os chineses comemoram (aqui, alguns amigos meus diriam 'ah, e a revolução?!', mas eu os mandaria calar a boca). Os cinco primeiros dias são dedicados às visitas e ao agradecimento: passa-se cada um deles com a família, a família dos sogros, com os mortos (sim, eles visitam o cemitério no ano novo), no templo e finalmente, com os amigos.

Meu professor de mandarim convidou a mim e outros brasileiros para um jantar de ano novo, com sua família. Melhor jeito de experimentar essas tradições não haveria! : )

O bairro em que eles vivem é habitado, predominantemente, por chineses. Daí, ao longe pode-se ver a fileira de lanternas vermelhas acesas nas entradas das casas, que só serão retiradas ao fim dos quinze dias. Queimam-se muitos fogos, para afastar os maus espíritos. Além do vermelho, o amarelo também é usado na decoração, simbolizando prosperidade. É comum ver desejos escritos com tinta preta em tiras de papel vermelho também na entrada e por toda a casa. O preto representa a água e a sabedoria; e o vermelho, o fogo e o sucesso. Em conjunto, causam ebulição - e é por ela que os chineses acreditam que as coisas mudam. No dia anterior ao feriado, nossos colegas de escritório levaram tinta e papel para praticarmos nossos desejos de prosperidade. Olha só que linda, a minha escrita:

 
Colei ao lado da minha mesa de trabalho. A frase da esquerda significa "Que todos os seus desejos se realizem". A da direita pode ser traduzida como "Grande fortuna, grande prosperidade" (grande na extensão, não é 'muita' em quantidade, me explicaram).
 
Ao chegarmos à casa do professor, fomos recepcionados pelo seu sogro que nos levou para conhecer toda a família. São seis irmãos e todos moram próximos. De casa em casa fomos recebidos com muita festa, alegria, chá e comida - muita comida. Assim, soubemos da história da família, do novo casal formado no último 31 de dezembro e também a história de cada cookie e da torta especial de ano novo. Uma dica é se estiver satisfeito, sempre deixar algo no prato e na xícara. Vazio, para eles, não signfica saciedade, mas sim que você ainda quer mais.


Um pedacinho da família do professor, fazendo sinal de 'Feliz Ano Novo'! Eles não poderiam passar por brasileiros?? : )
A mocinha do meu lado, na foto, é minha xará! :D

 Depois de quase uma hora degustando os quitutes é que nos avisaram que o jantar estava servido. E que jantar!! Todos se sentam à mesa - que deve ser redonda, para favorecer o relacionamento e a união da família. E como nas nossas celebrações, tudo é servido com bastante fartura, para trazer sorte e  felicidade. Sempre há arroz e peixe, para trazer prosperidade e dinheiro, respectivamente. Também há um tipo especial de macarrão para a data, que simboliza vida longa. E as mexericas, ah! Chineses as chamam de 'laranjas da sorte' e durante toda a festa esse é o modo de desejar prosperidade aos queridos: levando muitas frutas para casa, enfeitando o altar com elas, espalhando pelos cômodos... e comendo, principalmente! 

Quase que o altar não aparece!

O sogro nos explicou sobre as entidades que eles veneram e como fazem pedidos a elas. Em seguida, o professor nos explicou da tradição do ang pao (tradução literal: envelope vermelho). Assim como os cristãos trocam presentes no Natal, as crianças e os solteiros de cada família chinesa, durante a festa, recebem envelopes, que não precisam ser vermelhos, com dinheiro. Isso é o presente deles - os filhos casados também entregam ang paos aos pais anciãos. Eu, claro, ganhei um!

 
Meu ang pao! Até que enfim minha solteirice serviu pra alguma coisa! :P
 
Ainda restavam mais duas casas para visitar - e lá fomos nós, conhecer o resto da família. Ao fim da noite e dos jantares, éramos cinco brasileiros felizes da vida, com tamanha recepção. Eu fiquei muito lisonjeada com o cuidado, o carinho e os muitos elogios também (minha beleza é exótica pra eles). Foi o primeiro ano novo chinês que comemorei e aprovo! Esse povo realmente sabe se divertir. Que venham os outros!

Gong Xi Fa Cai (Feliz Ano Novo)!!!


: : Em KL, 01h03, já de quinta.
: : Ouvindo: Oasis.